quarta-feira, 26 de maio de 2010

Futebol: Somos vítimas de exploração? Confira o texto de Paulo Miranda Fávero e outros mais sugeridos como Arlei Sander Damo - ON LINE Introdução ao Direito Desportivo

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Introdução ao Direito Desportivo

 

Ajuda a sanar dúvidas sobre nosso último encontro

 

em   http://www.youtube.com/my_playlists?p=54CADE1688BDA91B

 

       A invenção do Futebol by      "Os Melhores Do Mundo" parodiand a invenção do Futebol MODERNO numa Inglaterra monárquica e aristocrática.

Imperdível:
      http://www.youtube.com/watch?v=rnPOopn4wck&feature=email

Desafio:  Com que parte do corpo você faz pode fazer gol?
http://www.youtube.com/watch?v=YRlQ5xZdi6U

Recomendamos, tb., os textos, selecionados, logo a seguir e em anexo,

Revista brasileira de ciências do esporte

 By Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte:

http://books.google.com/books?id=hFFSsMA6zHAC&lpg=PA90&ots=UY-4RDQ4ed&dq=Arlei%20Sander%20Damo&pg=PA73#v=onepage&q=Arlei%20Sander%20Damo&f=false

 Boa leitura...

Vítimas da exploração

Paulo Miranda Fávero
24.05.2010

Seja na infância ou na idade adulta, a exploração do jogador de futebol se dá por diversas maneiras. A noção de liberdade é uma ilusão necessária no capitalismo e o jogador não tem autonomia da escolha. Dentro do sistema Fifa, se ele quiser atuar profissionalmente, terá de fazer sob contrato de algum clube regularizado. Por isso existe um mercado paralelo para viabilizar esse sonho.

 

O jovem M. (o nome será omitido a pedido do próprio entrevistado) revela como funciona um esquema para profissionalizar atletas. No caso específico de M., foi pago R$ 3.000,00 para um ex-jogador fazer o processo de profissionalização. "Eu dei cópia dos meus documentos, foto e assinei os contratos da CBF. Não precisei fazer exame médico, foi tudo arranjado. Quem deu a grana foi um amigo, que acha que eu tenho condições e investiu em mim. Mas fazendo testes nos clubes, alguns moleques me falaram que dava para fazer tudo por apenas R$ 1.500,00", conta.

M. tinha 25 anos na época, 1,76m de altura e pesava 52 quilos. Além de não ter o porte atlético para um jogador profissional, tem uma idade já avançada para iniciar uma carreira nos campos de futebol. "Neste mundo em que tudo se dá um jeitinho, sempre fica um fundinho de esperança. A gente vê tanto jogador ruim na TV que acha que consegue. Mas pensando racionalmente, eu acho que não tenho condições. Como um amigo se dispôs a pagar para mim, aceitei. E é assim que funciona", comenta.

 

Mas quando M. quis disputar competições amadoras, que envolvem milhares de pessoas em todos os lugares, os famosos jogos de várzea, descobriu que não podia mais: ele era profissional. "Agora, para poder atuar nestes campeonatos, preciso pagar R$ 100,00, para fazer o que eles chamam de reversão, ou seja, voltar a ser amador", explica. O registro de M. foi feito em um clube do interior paulista e seu nome saiu no BID, o Boletim Informativo Diário da CBF. E M. até indica o caminho para aqueles que sonham em se consagrar nos gramados. "Muita gente que eu troquei idéia faz um DVD com seus melhores momentos. Isso ajuda muito e o cara pode até conseguir uma transferência para o exterior", diz.

Quanto os capitalistas precisam pagar para obter os direitos relativos à força de trabalho, e o que, exatamente, esses direitos abrangem? As lutas sobre o índice salarial e sobre as condições de trabalho (a extensão do dia útil, a intensidade do trabalho, o controle sobre o processo laboral, a perpetuação das habilidades etc.) são, em conseqüência, endêmicas com respeito à circulação do capital (HARVEY, 2005, p. 132).

 

É inevitável que em plena sociedade do espetáculo muitas crianças tenham a ilusão de um dia tornarem-se atletas de futebol. Como foi exposto, existe um mercado voltado para suprir as demandas pelos craques, mas que dá as costas àqueles que não deram certo na profissão. Harvey aponta que a força de trabalho é uma mercadoria, e assim também é qualificada como uma forma de propriedade privada. Mas num mundo em que ninguém pode atentar contra a propriedade privada alheia, o jogador, seja ele criança ou adulto, não tem direitos exclusivos de venda de sua própria força de trabalho, como qualquer outro trabalhador, e ele mesmo já se tornou uma mercadoria para ser consumida.

 

Hoje, muitos desses jogadores são como as vedetes citadas por Guy Debord: eles têm um papel a desempenhar e vivem na aparência. São o contrário do indivíduo e preferem ficar com a personagem de si mesmo. Quando olham para o espelho, preferem ser a imagem refletida, como nos aponta Lefebvre1. É uma vida aparente sem profundidade, mas eles se satisfazem por receberem o "direito de imagem" que o clube paga. "As pessoas admiráveis em quem o sistema se personifica são conhecidas por aquilo que não são; tornaram-se grandes homens ao descer abaixo da realidade da vida individual mínima. Todos sabem disso" (DEBORD, 2002, p. 41).

 

Na própria linguagem do futebol, os jogadores são considerados mercadoria: "(...) os demais agentes referem-se a eles, seguidamente, como mercadorias: 'fulano custou x', 'com fulano o clube faturou x', 'fulano foi comprado por x, mas não vale y' e assim por diante" (DAMO, 2005, p. 340). Até quando a sociedade irá olhar para isso como se nada estivesse acontecendo?

  
Bibliografia 
DAMO, Arlei Sander. Do Dom à Profissão. Uma Etnografia do Futebol de Espetáculo a Partir da Formação de Jogadores no Brasil e na França. 2005. 435 f. Tese (Doutorado em Antropologia Social) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Rio Grande do Sul, 2005.
 
DEBORD, Guy. Sociedade do Espetáculo. Comentários Sobre a Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
 
HARVEY, David. A produção capitalista do espaço. São Paulo: Annablume, 2005.
 

[1] Informação extraída de uma tradução não-oficial do capítulo O Espaço Contraditório, do livro A Produção do Espaço, de Henri Lefebvre.
 
*Paulo Fávero é jornalista, geógrafo, mestrando em Geografia Humana na FFLCH-USP com apoio do CNPQe pesquisador do Gief (Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre o Futebol).
 
Esse texto foi originalmente publicado no site Universidade do Futebol e cedido pelo autor para publicação nesse espaço. 
 
 

Futebol e identidade social, de Arlei Sander Damo

 

Futebol E Identidade Social Arlei Sander DamoEm primeiro lugar, preciso falar um pouco sobre como consegui este livro. Ele me foi enviado por Idelber Avelar, professor da Universidade de Tulane, em New Orleans. Em vão, tentei comprá-lo, apesar de ser um livro novo, de 2002. Em minhas tentativas, escrevi para a Editora da UFRGS, tendo recebido como resposta o mais completo silêncio. Procurei novo contato, pois queria dá-lo de presente aos criadores do Impedimento, mas nada, não parece haver ninguém por lá. Por que então existe um Fale Conosco bem aqui? Então, meu sobrinho conseguiu o e-mail do próprio autor. Foi atendido mui educadamente, obtendo a confirmação de Damo de que a obra era muito procurada, mas que só a editora podia resolver o caso. Bem, ao menos isto não é culpa da corrupção do futebol, nem de Ricardo Teixeira…

O livro de Arlei Sander Damo tem o subtítulo de "Uma leitura antropológica das rivalidades entre torcedores e clubes" e originou-se da dissertação de mestrado do autor, escrita entre 1996 e 1998, aproximadamente.

É obra interessantíssima para quem queira sair da mesmice das notícias diárias sobre futebol — aquelas mesmas que tanto deprimem nosso noturno cidadão de uma república enlutada — e adentrar de forma inteligente e bem conduzida na história da formação desta loucura que vemos. Damo nos explica o nascedouro da dupla Gre-nal e de sua rivalidade. "Se queres ser universal, canta tua aldeia", dizia Tolstói de forma mais esperta que Wianey Carlet. Cantar sua aldeia é o que faz Damo, fazendo-nos descobrir claras analogias com outras cidades, estados e rivalidades clubísticas brasileiras. As explicações são do autor, as projeções são nossas; há leitura mais produtiva e agradável do que conjeturar junto com o autor? Não, né? A obra começa no início do século passado, descrevendo o início do associativismo esportivo em nossa Porto Alegre – empurrado pelos imigrantes alemães, "ficiados" em clubes – para chegar aos primórdios de uma paixão e de uma rivalidade que é boa para torcer, mas que também é boa para se pensar a respeito.

São absolutamente preciosas as argumentações sobre raça e classes sociais que faz o autor, sobre o crescimento do racismo no Grêmio à época do Dr. Py e a da salvação do clube através de seu maior presidente, Saturnino Vanzelotti, o qual resolveu enfrentar os "gremistas vigilantes", que lhe escreviam mal-disfarçados apedidos em jornais, sempre zelosos de que a camisa tricolor não fosse maculada pelos negros. (Seus textos, sempre anônimos, parecem ter como autor um Joseph Goebbels com superego fraco.) Outros fatos significativos que são analisados são as infrutíferas tentativas do autor para descobrir a origem clara do poderio colorado dos anos 40: a célebre Liga das Canelas Pretas – o que vem comprovar a pouca documentação da história negra no Rio Grande do Sul –; a derrocada do amadorismo; um exame sobre a influência dos estádios na gangorra Gre-nal e um estudo sobre a formação das torcidas sob a ótica das raças e das classes sociais.

É apenas isto o que a Editora da UFRGS insiste em nos esconder. Ainda não devolvi o livro para o Idelber. Querem cópias…?

Observações finais:
1. Apenas o texto "Sobre o regional e o nacional no futebol brasileiro" é datado e mereceria uma recauchutagem geral.
2. Arlei Sander Damo daria um bom leitor do Impedimento.
3. Apesar de não confessar, Arlei Sander Damo é um gremista nojento.

 

 

Ruben George Oliven

Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Brasil

 

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-71832002000100016

DAMO, Arlei Sander. Futebol e identidade social: uma leitura antropológica das rivalidades entre torcedores e clubes. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2002. 159 páginas.1

 

Quando um deputado brasileiro troca de partido, raramente se fala de traição. O mesmo não ocorre com o torcedor que troca de time de futebol. Este é, em geral, chamado de vira-casaca, termo que designa alguém que trocou de lado e que, portanto, não é muito confiável. O torcedor deve continuar fiel a seu time, mesmo quando este fica anos sem vencer um campeonato, como aconteceu com o Corinthians, cujos torcedores são chamados significativamente de fiéis.

Por que a troca de lado é aceita na política, esfera que decide a vida de milhares de pessoas, mas é mal vista num esporte, que, afinal, segundo muitos, não passa de um jogo? Por que esse esporte mobiliza tantos ou mais sentimentos que a política? É essa e outras questões que Futebol e Identidade Social procura discutir.

Nesse livro fascinante, Arlei Damo mostra como o futebol funciona através de um sistema de lealdades. Torcer significa pertencer, e pertencer a um clube significa ser leal a ele. Vibrar quando ele ganha, sofrer resignadamente quando ele perde. Participar do mundo do futebol significa escolher um clube do coração. Uma vez feita a opção, ela não deve ser alterada, pois o torcedor passa a pertencer ao clube. E o time desse clube está sempre competindo com os outros, definidos como adversários.

Em sua introdução, o autor lança a idéia de que, para os homens, o futebol desempenha o mesmo papel que a roupa. Desprezá-lo significa estar despido. Nesse sentido, o futebol pode ser visto como uma linguagem. De certa forma, ele é um código que todos devem ser minimamente capazes de utilizar. Em países como o Brasil, em que o futebol é um esporte extremamente popular, parte-se do pressuposto que todos estão interessados nele e, por conseguinte, são capazes de falar sobre ele, e até gostam disso. Assim, falar sobre o futebol, passa a ser uma forma de falar sobre o país e sobre a identidade nacional.

O livro trata justamente da relação do futebol com essa identidade. Ele começa analisando o surgimento desse esporte no contexto da Europa pós-Revolução Industrial; a seguir, discute a sua introdução e popularizacão no Brasil, indo desde a fundação dos primeiros clubes até a criação do Grupo dos 13. Depois se concentra em dois desses clubes, o Grêmio e o Internacional, examinando sua rivalidade e as características associadas a cada um deles, e procurando explicar porque ainda hoje, freqüentemente, o primeiro é visto como "branco e elitista" e o segundo como "negro e popular". No último capítulo, o autor aborda uma questão cada vez mais discutida no Brasil: em relação ao futebol jogado no restante do país, o futebol gaúcho é diferente e mais violento? Existe um estilo gaúcho de jogar? O regionalismo se reflete também no esporte?

Para escrever este livro, Arlei Damo realizou uma sólida pesquisa. Além de freqüentar o dia-a-dia de estádios de futebol, ele viajou com os torcedores, assistiu partidas com eles, participou de suas comemorações e derrotas, entrevistou vários deles, falou com dirigentes, pesquisou documentos e atas, etc. Ele conseguiu, assim, produzir uma obra que combina um esmerado estudo sobre a evolução do futebol no exterior, no Brasil e no Rio Grande do Sul com uma pesquisa de campo antropológica. Através desta, conseguiu compreender o que significa a paixão futebolística para aqueles que a vivem.

Sabemos que, atualmente, o futebol está passando por profundas mudanças no Brasil: a Lei Pelé modificou a relação dos jogadores com os clubes, e vários deles estão se transformando em empresas que movimentam somas astronômicas. Esta não é a primeira mudança pela qual o futebol passa e certamente não será a última. As circunstâncias mudam, mas a paixão dos torcedores permanece inalterada. Ao contrário de outras paixões, a do futebol é eterna.

 

 

1 Esta resenha foi publicada como prefácio do livro resenhado, com o título A Paixão pelo Futebol

 

 

Selvagens da bola
Na Copa de 1938, a seleção brasileira causou surpresa e críticas na Europa com seu futebol "romântico e primitivo"
Arlei Sander Damo
Eis os brasileiros: com seu café e seus violões!", anunciou o jornal Petit Parisien vinte dias antes do início da Copa do Mundo de 1938. Não chega a ser uma manchete depreciativa, mas o destaque dado ao café e aos violões indica certo desdém pelo que realmente importava no caso: o nosso futebol.

Quatro anos após fazer feio na Copa anterior – quando foi desclassificada pela Espanha logo na estréia –, a seleção brasileira não inspirava grande temor nos times europeus. Mas o pouco caso com que os franceses nos receberam não era apenas fruto de ignorância sobre o talento dos jogadores brasileiros. Na época, o julgamento do mérito esportivo de cada país estava contaminado por outras influências. Nem esporte, nem negócios (como acontece nos campeonatos atuais) – a Copa de 1938 pegou a Europa às vésperas de uma nova Guerra Mundial, que teria no nacionalismo e na xenofobia  seus principais combustíveis.

Difundia-se a crença de que a superioridade nos esportes refletia a supremacia racial de algumas nações. O torneio de 1934, organizado e vencido pelos italianos, as Olimpíadas sediadas na Alemanha nazista em 1936 e aquela Copa na França refletiam essas idéias. As atitudes dos atletas, individuais ou coletivas, eram projetadas sobre o caráter, o espírito e a índole de todo o povo que representavam. Por isso, embora a atuação em campo fosse a principal referência, os comentários dos cronistas franceses na imprensa a respeito dos jogadores brasileiros iam além da performance futebolística.

O nacionalismo, por sinal, fazia escola do outro lado do Atlântico. No Brasil, havia grande expectativa em relação ao desempenho da seleção, e o governo se aproveitou disso. O presidente Getulio Vargas (1882-1954) estava de olho na recuperação de sua popularidade, em baixa após o golpe de 1937 que instituiu a ditadura do Estado Novo. Pessoalmente, ele não era muito chegado a esportes, mas percebeu na ocasião uma boa chance de disseminar um discurso patriótico capaz de unir a nação.

Esforçava-se para acompanhar os jogos pelo rádio, e mobilizou pessoas de confiança para acompanhar e promover os preparativos e o desenrolar da Copa. O ministro da Educação, Gustavo Capanema (1900-1985), enviou telegramas incentivando os jogadores. Alzira Vargas (1914-1992), filha mais moça do presidente, aceitou o convite da Confederação Brasileira de Desportos (CBD, atual CBF) para ser a "madrinha da seleção", viajando com a equipe para Paris. O embaixador do Brasil na França, Souza Dantas (1876-1954), assistiu pessoalmente aos jogos em Strasbourg e Bordeaux.

Desde a chegada, as atenções dos franceses recaíram sobre Domingos da Guia (1912-2000), chamado por eles de "famoso defensor negro", e Leônidas da Silva (1913-2004), "o maravilhoso atacante conhecido como 'Diamante Negro'". Mas nossas chances no torneio sequer eram cogitadas: "A Itália é favorita... os húngaros, azarões e os brasileiros, desconhecidos", noticiou o tablóide Paris-Soir dois dias antes do início da competição (sem saber, antecipando exatamente aqueles que seriam os três primeiros colocados). Não causaria surpresa, segundo um cronista, se o Brasil fizesse contra a Polônia seu único jogo na Copa, pois o regulamento decretava eliminação em caso de derrota.

Entre os próprios jogadores pairavam dúvidas sobre o sucesso da empreitada. Patesko (1910-1988), do Botafogo, declarou que o fato de a seleção verde-amarela continuar jogando com cinco atacantes, três meias e apenas dois defensores era um indício de que o país ainda não havia assimilado as novas tendências do futebol. O esquema tático mais moderno, criado pelos ingleses na década de 1920, era o chamado WM, letras que representavam a disposição dos jogadores em campo – três defensores e dois meio-campistas atrasados (formando o M), mais dois meio-campistas adiantados e três atacantes (formando o W). Esquadrinhando cada espaço do campo, a tática propiciaria o total controle do jogo, mas no Brasil ela não vingara. Desdenhar este princípio era como remar contra a racionalidade que se tornara a tônica do futebol.

Apesar da descrença geral, a estréia contra os poloneses, em Strasbourg, foi espetacular: empate em 4 a 4 no tempo normal, depois de o Brasil virar o primeiro tempo vencendo por 3 a 1, e uma vitória dramática por 2 a 1 no final dos 30 minutos da prorrogação, jogada sob chuva intensa. Os brasileiros impressionaram pela habilidade individual e pela impetuosidade do seu ataque, com destaque para a capacidade de improviso do "felino negro", Leônidas da Silva. A imprensa celebrou o feito: "Grandes artistas e perfeitos tecnicamente", foi uma das manchetes do Petit Parisien. O jornal, no entanto, também criticava a fragilidade da defesa brasileira.

A preferência pelo jogo individual em detrimento do coletivo era um problema que, segundo a crônica, cedo ou tarde seria fatal: "Os brasileiros, vencedores dos poloneses, são malabaristas da bola mais do que uma equipe de futebol", foi a manchete do Le Miroir des Sports. O jornal descreve Leônidas como "diabo preto", "acrobata", "dado a fazer piruetas", "a plantar bananeira", "a saltar como carpa", entre outras metáforas pitorescas. Imagens que podiam maravilhar o público, mas não se recomendava que fossem levadas a sério. Nas palavras dos cronistas franceses, os brasileiros jogavam um futebol "mais intuitivo do que inteligente".

Na véspera do nosso segundo jogo, contra a Tchecoslováquia, o jornal L'Auto usou outro termo para classificar os brasileiros: "românticos". Nossos adversários, ao contrário, primavam pela racionalidade. E pelo tom do jornal, fica evidente qual dessas características   era a mais admirável: "Entre os brasileiros, tudo não passa de inspiração, de criação imprevista. Entre os tchecoslovacos, o sistema é que é sua honra, o desenvolvimento racional, previsto, matemático das manobras de conjunto". O texto fazia questão de lembrar que os tchecos representavam a Europa Central; ainda assim, pertenciam ao continente da cultura e da civilização. Os sul-americanos, por sua vez, eram associados à natureza, a um mundo selvagem.

"Cubanos... Brasileiros... será amanhã o triunfo do futebol improvisado?" Com esta pergunta provocativa, o L'Auto anunciava a segunda fase da Copa. Os cubanos trataram de colocar as coisas em seus devidos lugares: depois de vencerem surpreendentemente a Romênia, acabaram massacrados pela organizada Suécia por 8 a 0. Mas o improviso brasileiro continuou a dar samba. Em Bordeaux, empatamos em 1 a 1 com a Tchecoslováquia. O Petit Parisien, que criticara a defesa brasileira contra a Polônia, desta vez a elogiou.. Com o jogo empatado no fim da prorrogação, as regras indicavam a necessidade de uma nova partida, dois dias depois.

O vencedor desta disputa teria que viajar quase um dia de trem até Marseille para disputar na quinta-feira, contra a temida Itália, uma vaga na final. A comissão técnica brasileira tomou uma decisão ousada: na terça, ao meio-dia, embarcou o time titular para Marseille, deixando apenas o goleiro Walter e o centroavante Leônidas para jogar contra a Tchecoslováquia, ao lado dos reservas. Como não eram permitidas substituições, a estratégia foi bem-sucedida, pois os tchecos, cansados, sucumbiram no segundo tempo e o Brasil venceu o jogo por 2 a 1, de virada.

Para a semifinal, o Brasil tinha um grande desfalque. Leônidas, já combalido pelos pontapés do segundo jogo, se exaurira no terceiro e não teria condições de enfrentar a Itália. O técnico italiano, Vittorio Pozzo (1886-1968), imaginou que Leônidas estivesse sendo poupado para a final e criticou a empáfia dos brasileiros. Sem seu principal jogador, o Brasil foi um time comum, e depois de um primeiro tempo sofrível de parte a parte, acabou liquidado nos 15 minutos iniciais da segunda etapa: 2 a 1.

Na viagem de retorno a Paris depois de derrotar os brasileiros, o técnico italiano deixou escapar que as equipes se temiam mutuamente. Era uma confissão que contrastava com as bravatas ditas assim que acabou o jogo: entrevistado pelo Petit Parisien, Pozzo afirmara que os brasileiros jogavam "com seus meios naturais, que são grandes, mas sem nenhum método". E ia além: "Eles têm a necessidade de serem educados, dirigidos", pois, como a maioria dos sul-americanos, faltava aos brasileiros aprender a jogar coletivamente, disciplinadamente. Em resumo: eram "primitivos em matéria de futebol".

Longe de ser uma opinião isolada, as palavras de Pozzo traduziam uma espécie de consenso entre os cronistas franceses. A excessiva troca de passes, não raro laterais, sempre curtos e rentes ao solo, tornariam o ataque brasileiro muito lento, permitindo o bom posicionamento das equipes adversárias. Alguns cronistas chegaram a classificar os brasileiros de preguiçosos, fantasiosos e esnobes.

Um fenômeno curioso foi que os franceses, na contramão dessas condenações da imprensa, torceram fervorosamente pelo Brasil. Lotaram os estádios e apoiaram a seleção, como em Marseille, ocasião em que o árbitro foi vaiado por ter marcado um pênalti que liquidou com as chances do Brasil. Acompanhando o relato dos periódicos locais, é razoável crer que o público apreciava o virtuosismo de Leônidas e companhia. Talvez identificasse no estilo brasileiro um certo "exotismo". Na época, a classificação de "artistas da bola" não tinha a conotação positiva que lhe damos hoje. Acreditava-se que o futebol devia ser jogado para vencer, o que exigiria procedimentos metódicos e disciplinados. Não por acaso, a Itália foi aclamada pela imprensa do princípio ao fim: embora pouco vistoso, seu futebol era o mais eficiente. O país sagrou-se campeão sem maiores dificuldades ao vencer na final a Hungria por 4 a 2. Os jornais parisienses não pouparam elogios à conquista, e até o técnico derrotado considerou justa a vitória italiana, dedicada a seu ditador fascista Benito Mussolini (1883-1945).

Já os "primitivos" brasileiros retornaram a Bordeaux após perderem a semifinal, e lá venceram a Suécia por 4 a 2, conquistando o terceiro lugar na Copa do Mundo. Há setenta anos, o estilo original de jogar dos atletas brasileiros encheu os olhos do mundo pela primeira vez. Apesar das críticas e dos desmerecimentos, fundávamos uma nova concepção estética do jogo, que atribui importância maior à beleza dos lances, reflexo da alta qualidade técnica dos jogadores. Com o passar dos anos e a conquista da supremacia mundial, nosso "futebol- espetáculo" não só mostrou-se competitivo, como se tornou a maior referência dos amantes do esporte.

ARLEI SANDER DAMO é professor de Antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e autor de Do dom à profissão – a formação de futebolista no Brasil e na França (HUCITEC, 2007).  

Saiba Mais - Bibliografia:

GUEDES, Simoni. "De Criollos e Capoeiras: notas sobre futebol e identidade nacional na Argentina e no Brasil". Exposição realizada no XXVI Encontro Anual da ANPOCS, Caxambu (MG), 22 a 26 de outubro de 2002.

LEITE LOPES, José S. "A vitória do futebol que incorporou a pelada". In: Revista USP, nº22, 1994.

NEGREIROS, Plínio. "O futebol e identidade nacional: o caso da Copa de 1938". In: Lecturas: Educación Física y Deportes. Buenos Aires, ano 3, nº 10, maio de 1998. (Disponível em: http://www.efdeportes.com/efd10/copa38.htm)

http://www.revistadehistoria.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=2024